Como cortar um texto para caber no limite de palavras

Corte na ordem do que rende mais. Uma seção que não responde à pergunta vale mais do que cem frases enxugadas, e é justamente o corte que quase todo mundo deixa por último.

Você tem 2.340 palavras em um trabalho de 2.000 e a entrega é amanhã. O impulso é abrir na primeira linha e começar a raspar adjetivos. É a ponta errada do texto para começar, e é por isso que cortar consome a noite inteira.

As técnicas abaixo estão ordenadas pelo quanto recuperam. Apagar uma seção que responde a uma pergunta que ninguém fez tira vinte por cento em uma única decisão. Revisar frase por frase, feito com cuidado, costuma recuperar de 5% a 10% e leva muito mais tempo. Quem começa pelo nível da frase faz o trabalho lento primeiro e depois descobre que o corte estrutural era inevitável — com o texto inteiro já polido em volta dos parágrafos que vai apagar.

As porcentagens aqui são aproximadas, e precisam ser. O que cada técnica rende depende de como o rascunho foi escrito: um texto cheio de frases de transição tem muito a devolver na etapa três; um escrito com disciplina a partir de um bom roteiro não tem quase nada. Use os números para decidir por onde começar, não para prever o resultado.

Meça a diferença e corte nesta ordem

Tenha o número exato antes de apagar qualquer coisa. Passe o rascunho por um contador de palavras, subtraia o limite e transforme a sobra em porcentagem: 340 palavras acima de um limite de 2.000 são dezessete por cento. Essa porcentagem diz até onde da lista você precisa descer.

Antes de confiar no número, confirme o que entra na conta. Notas de rodapé, citações no corpo do texto, tabelas, resumo e referências entram ou não dependendo do curso, e errar nos dois sentidos custa uma hora de trabalho. As normas da ABNT tratam de formatação e citação, não de limite de palavras: o limite vem do enunciado, do plano de ensino ou do edital, e é lá que está a resposta.

Depois, corte nesta ordem. Cada etapa recupera menos que a anterior e custa menos ao argumento que a seguinte.

  • Apague uma seção ou um argumento inteiro que não responde à pergunta. Recupera de 10% a 25% em uma decisão só.
  • Funda parágrafos que fazem o mesmo ponto duas vezes. Recupera de 5% a 15%, e mais ainda se o texto foi escrito em várias sentadas.
  • Elimine as frases de aquecimento e o excesso de sinalização. Recupera de 3% a 8% e não custa absolutamente nada.
  • Troque citações diretas por paráfrase sempre que as palavras exatas não forem a prova. Recupera de 5% a 15% em um texto cheio de citações e quase nada em um com poucas.
  • Aperte o enchimento no nível da frase: nominalizações, conectivos vazios, hesitações empilhadas. Recupera de 5% a 10% e é o que mais demora por palavra economizada.
  • Reduza os exemplos. Recupera o quanto você precisar, e vem por último porque é a etapa com maior chance de piorar o trabalho.

Corte a seção que não responde à pergunta

Releia o enunciado e depois leia seus subtítulos ou frases de abertura contra ele. Na maioria dos textos que estouram o limite, uma seção responde a uma pergunta vizinha à que foi feita. Costuma ser a parte que você achou mais interessante e a que pesquisou primeiro.

Em um trabalho de 2.000 palavras, uma seção de desenvolvimento tem de 300 a 500 palavras. Apagar uma resolve sozinha quase qualquer diferença realista, e é a única jogada desta lista capaz de mover vinte por cento em cinco minutos.

Identificar a seção não é a parte difícil. A parte difícil é que você passou quatro horas nela. Recorte para outro arquivo em vez de apagar: é a mesma tecla, sem a discussão que você trava consigo mesmo sobre trabalho jogado fora. Nada nesse arquivo será corrigido de um jeito ou de outro.

O outro candidato é o mais fraco de três argumentos. Dois argumentos bem desenvolvidos costumam valer mais que três apresentados pela metade, e o terceiro é onde a metade normalmente está. Seja qual for o que sair, procure na introdução e na conclusão a frase que o prometia. Um roteiro anunciando três argumentos na frente de um texto que faz dois é uma emenda que o corretor enxerga.

Funda os parágrafos que repetem o mesmo ponto

Leia só a primeira frase de cada parágrafo, na ordem, e ignore o resto. Duas frases de abertura dizendo essencialmente a mesma coisa significam dois parágrafos fazendo um trabalho. Fundir os dois mantém as evidências de ambos e elimina uma preparação e um fechamento, o que normalmente dá de 60 a 120 palavras.

Esse tipo de repetição quase sempre vem de escrever em várias sentadas. Você voltou ao texto, não lembrava exatamente do que já tinha estabelecido e estabeleceu de novo com outra evidência. Parece rigor enquanto se escreve e parece rodeio na hora da correção.

O padrão irmão é a seção que apresenta um ponto, argumenta e depois resume o mesmo ponto antes de seguir adiante. Dentro de uma seção, esse resumo final é peso morto. Guarde o resumo para a conclusão, onde ele tem função.

Apague as frases de aquecimento

Frase de aquecimento é a corrida antes do salto: o trecho que vem antes de a frase começar a dizer alguma coisa. É o corte mais barato disponível, porque tirá-lo nunca custa um argumento, um exemplo ou uma referência — custa só um atraso.

As expressões se repetem, o que as torna pesquisáveis. Procure cada uma delas no arquivo e leia a frase sem ela.

  • "Vale ressaltar que" e "Cabe destacar que" — apague inteiro. Se o ponto não valesse destaque, não estaria no trabalho.
  • "É importante notar que" — mesma coisa, e é a mais frequente das três.
  • "Neste trabalho, pretendo argumentar que" — normalmente se reduz ao próprio argumento, que é o que o leitor queria.
  • "Esta seção vai examinar" e "Tendo estabelecido X, passamos agora a Y" — sinalizar assim se justifica numa dissertação de 10.000 palavras e raramente num texto de 1.500.
  • "Como mencionado anteriormente" — se o leitor viu quatro parágrafos atrás, ele ainda tem aquilo. Se não tem, o lembrete não conserta.
  • "Pode-se argumentar que" — ou você está argumentando, ou está relatando que outra pessoa argumentou, e nesse caso diga quem.

Parafraseie quando as palavras exatas não são a prova

Cite diretamente quando a redação for a própria prova: quando você analisa a linguagem, quando a formulação é disputada, ou quando a frase é conhecida o bastante para que parafraseá-la pareça fuga. Parafraseie quando tudo o que você precisa é da afirmação.

A economia é grande porque a citação longa é comprida e as frases em volta dela são mais compridas ainda. Uma citação de 40 palavras costuma chegar com uma apresentação de 15 e um comentário de 20 explicando o que ela acabou de dizer. Em paráfrase, o mesmo conteúdo cabe em umas vinte palavras no total. Três casos desses num trabalho são 150 palavras.

Duas condições. A paráfrase continua levando a referência: tirar a fonte junto com as aspas é plágio, não edição. E a paráfrase precisa ser sua de verdade — trocar quatro palavras de uma frase citada e remover as aspas é pior do que ter deixado a citação onde estava.

Um caso concreto da etapa anterior, que também vale aqui. "Vale ressaltar que a reforma foi aprovada sem consulta pública" tem dez palavras. "A reforma foi aprovada sem consulta pública" tem sete. Nada se perdeu. Num rascunho com vinte aberturas assim, são sessenta palavras, e as mais rápidas que você vai achar.

Aperte as frases e deixe os exemplos por último

Apertar frase por frase é trabalho de verdade e soma, mas num rascunho inteiro rende algo como 5% a 10% por uma hora de atenção. Faça isso depois dos cortes estruturais, para não polir um texto que você vai jogar fora.

Três padrões respondem pela maior parte. A nominalização enterra o verbo dentro de um substantivo e precisa de palavras auxiliares para se sustentar. Os conectivos vazios gastam cinco palavras onde uma conjunção resolve. As hesitações empilhadas colocam três incertezas sobre a mesma afirmação, o que soa menos seguro em vez de mais cuidadoso: uma hesitação por afirmação é o teto.

  • Os exemplos ficam por último porque são a parte do trabalho que mostra compreensão em vez de memória, e o corretor percebe quando eles somem.
  • Corte exemplos inteiros em vez de encurtar todos. Três ilustrações do mesmo ponto são duas a mais: fique com a mais forte e apague as outras de uma vez.
  • O erro clássico é o movimento oposto — aparar as três até nenhuma cumprir sua função. Mais curto e mais raso vale menos que mais curto e mais denso.
  • Procure o exemplo explicado por mais linhas do que o ponto que ele sustenta. Se a ilustração tem oitenta palavras e a afirmação por trás dela é uma frase, o desequilíbrio já existia antes do limite entrar na conversa.
Enchimento comum e no que ele se reduz
EnchimentoSubstituiçãoPalavras economizadas
devido ao fato de queporque4
apesar do fato de queembora4
no caso de quese3
no presente momentoagora2
com o objetivo depara3
um grande número demuitos3
realizou uma análise deanalisou3
fornece uma explicação paraexplica3
tomou a decisão dedecidiu3
existem três fatores que influenciamtrês fatores influenciam2
é possível que talvez isso sugiraisso sugere4
Cada troca economiza um punhado de palavras. É em duzentas frases que o punhado vira 5% a 10%.

Quatro cortes que custam nota

Algumas palavras parecem removíveis e não são. Estas quatro são o que transforma um texto acima do limite num texto com nota descontada.

As referências. Apagar uma citação para economizar quatro palavras transforma uma afirmação sustentada em afirmação solta e, no pior caso, em afirmação sem crédito. Quando as citações no corpo do texto contam para o limite — e frequentemente contam —, o jeito de economizar é fazer uma referência sustentar um parágrafo fundido, em vez de dois parágrafos carregando a sua cada um.

A conclusão. Ela fica no fim, retoma coisas que você já disse e parece o sacrifício óbvio. Também costuma pesar bastante na correção, porque é onde você mostra no que o argumento dá. Reduzi-la a quarenta palavras para economizar cem é a pior troca desta página.

O mínimo. Correndo do teto, muita gente atravessa o piso. Um trabalho pedido entre 1.500 e 2.000 palavras que termina com 1.420 descumpriu o enunciado com a mesma clareza de um com 2.300. Assim que entrar na faixa, pare. Confira a contagem depois da última edição em vez de supor.

A análise. Sob pressão, as primeiras frases a sair são as que fazem o trabalho interpretativo, porque foram mais difíceis de escrever e parecem menos sólidas que os fatos ao redor. A descrição sobrevive, a análise some, e o texto sai mais curto e pior. Se o parágrafo agora só relata o que a fonte disse, você cortou a frase errada.

Cole o rascunho no contador de palavras depois de cada passada para saber onde você está de fato. Medir é instantâneo e evita que você tire 400 palavras quando a diferença era 340. Decidir o que sai é um julgamento sobre o seu próprio argumento, e nenhum contador está em posição de fazer isso por você.

Perguntas frequentes

Quanto acima do limite é aceitável?

Depende inteiramente do curso, e o enunciado ou o plano de ensino é a única autoridade que vale consultar. Muita disciplina aceita uma margem em torno de dez por cento para mais ou para menos; outras descontam em escala; algumas param de ler no limite e corrigem só o que veio antes. Se nada estiver escrito, pergunte a quem vai corrigir, e até ter resposta trabalhe como se não houvesse margem nenhuma.

As referências entram na contagem?

Normalmente não, mas as citações no corpo do texto entram com frequência, e as notas de rodapé variam mais que qualquer outro item. A diferença importa aqui porque muda o que o corte rende: se as citações contam, fundir dois parágrafos também funde duas citações. Seja qual for a regra, ela nunca é motivo para apagar uma referência. Uma afirmação sem fonte custa mais do que as palavras que ela economiza.

E se eu ficar abaixo do mínimo depois de cortar?

Você cortou estrutura onde devia ter cortado enchimento, ou tirou a seção errada. A solução não é devolver palavras: qualquer coisa escrita para preencher espaço soa como enchimento e o corretor identifica na hora. Desenvolva o que sobrou. Pegue o argumento mais forte que ficou e aprofunde a análise, o que aumenta a contagem como consequência de fazer algo que vale nota.

Devo cortar a introdução ou a conclusão primeiro?

Nenhuma das duas. Juntas costumam ocupar cerca de um quinto do trabalho e pesam de forma desproporcional na correção, porque é onde o argumento é enquadrado e onde ele aterrissa. A introdução merece uma revisão por outro motivo: é lá que as frases de aquecimento se concentram. Tire a corrida e mantenha o salto.

Usar formas contraídas economiza palavras?

Pouquíssimo, e o efeito colateral não compensa. Contrações do tipo "pra" no lugar de "para a" economizam uma palavra por ocorrência, mas são de registro falado e destoam da escrita acadêmica, então você ganha talvez quinze palavras e paga na avaliação de linguagem. Se a distância até o limite é tão pequena a ponto de isso parecer tentador, apertar as frases resolve sem custo nenhum.

Dá para caber no limite mexendo na formatação?

Não de forma relevante. Um limite de palavras mede texto, não diagramação, então margens, espaçamento entre linhas e corpo da fonte não mudam nada. Tirar títulos internos economiza duas ou três palavras cada e deixa um texto longo mais difícil de acompanhar, o que é uma troca ruim. Dependendo da regra que você recebeu, títulos e subtítulos nem entram na contagem.

Quanto tempo leva para cortar vinte por cento?

Num trabalho de 2.000 palavras, conte com uma a duas horas. A distribuição é desigual: apagar uma seção leva segundos depois que a decisão está tomada, e a decisão pode levar vinte minutos de discussão interna. Apertar frase por frase em 2.000 palavras dá mais ou menos uma hora se você realmente ler cada frase, e é por isso que essa etapa fica no fim, não no começo.

É melhor cortar ou reescrever a partir do roteiro?

Até uns vinte e cinco por cento acima do limite, cortar é mais rápido. Acima disso, o excesso costuma ser sintoma e não o problema: o texto está cobrindo mais terreno do que a pergunta pedia, e trezentos cortes pontuais não consertam um roteiro. Refazer o roteiro contra o enunciado e reescrever a partir do material que você já tem sai mais rápido e sempre produz um trabalho melhor.